Como ortopedista, recebo muitos pacientes idosos com queixas de dores no corpo todo: são as dores musculoesqueléticas generalizadas. Essas ocorrem pelo fato de o envelhecimento celular ocasionar uma desordem da homeostenose (perda de reservas orgânicas e funcionais, que é uma característica inerente do avançar dos anos), promovendo declínio estimado de algumas funções e maior vulnerabilidade a doenças em todo o corpo como as cardiovasculares, infecções, neoplasias e no caso da minha especialidade: as artropatias (dores nas juntas/articulações) e doenças degenerativas osteomusculares (dores nos ossos e músculos).

Na terceira idade, as dores articulares e degenerativas aumentam e ocorre a redução da capacidade funcional, por isso é importante manter a independência e prevenir a incapacidade, reabilitando e garantindo qualidade de vida com a prática esportiva. O processo natural de envelhecimento associado às doenças crônicas é o responsável pela limitação do idoso. Mas desde que bem orientado e medicado (quando necessário), a atividade esportiva ajuda a prevenir e melhorar as condições físicas e mentais do paciente geriátrico.

Com o intuito de permitir comparações mais diretas entre os países, a Organização Mundial da Saúde considera idoso e tem normatizado a idade de 65 anos. Nesta fase da vida é importante focar sempre na prevenção, pois nem sempre o indivíduo irá manifestar sintomas de doenças – até o idoso aparentemente saudável requer cuidados, pois as manifestações nesta faixa etária são atípicas e subclínicas; os sintomas são inespecíficos e geralmente não relatados. O início é insidioso e é muito fácil “perder” um diagnóstico já que nessa faixa etária o paciente tende a aceitar e achar que é natural do envelhecimento ter tantas dores e acaba demorando a procurar ajuda, além de não praticar mais esportes (o que deveria acontecer exatamente ao contrário).

As principais ocorrências de dores no idoso são:

Artrose: Também chamada de osteoartrose ou processo degenerativo articular, resulta de um processo anormal entre a destruição cartilaginosa e a reparação da mesma. O estado de hidratação da cartilagem e a integridade da mesma é fator preponderante para o não desenvolvimento da artrose.

Artrite reumatóide: Doença auto-imune de etiologia desconhecida, caracterizada por poliartrite periférica, simétrica, que leva à deformidade e à destruição das articulações por erosão do osso e cartilagem. Afeta duas vezes mais mulheres do que homens e sua incidência aumenta com a idade. Em geral, acomete grandes e pequenas articulações em associação com manifestações sistêmicas como rigidez matinal, fadiga e perda de peso. Quando envolve outros órgãos, a morbidade e a gravidade da doença são maiores, podendo diminuir a expectativa de vida em cinco a dez anos.

Bursite: Doença ortopédica caracterizada pela inflamação da bursa, uma bolsa cheia de líquido, existente no interior das articulações, cuja finalidade é amortecer o atrito entre ossos, tendões e músculos. A bursite pode acontecer em qualquer articulação (joelhos, cotovelos, quadris, etc.), mas é mais comum no ombro, devido ao uso e esforço repetitivo na articulação.

Traumas ortopédicose quedas: são lesões associadas à um traumatismo direto (fraturas, luxações e contusões), geralmente ocorrem devido a quedas e até mesmo falta de equilíbrio muito comumente relacionados à senilidade, ou, traumatismos indiretos como entorses ou dores por esforços repetitivos (tendinites, fasceítes, etc).

Nós especialistas temos alguns medicamentos que aliviam as dores articulares, favorecem a mobilidade e permitem que o idoso consiga praticar atividades físicas e diárias com melhor agilidade, prevenindo assim o sedentarismo e imobilidade, muito comum na idade devido às dores.

Mas e a atividade física? Onde entra?

Atividade física e exercícios podem ajudar a permanecer saudável, com energia e independente à medida que envelhecem. Muitos adultos com idades entre 65 anos ou mais, gastam em média, 10 horas ou mais por dia sentado ou deitado, tornando-os o grupo etário mais sedentário ainda mais se as dores musculoesqueléticas da degeneração já estiverem acompanhando-os.

Eles estão pagando um alto preço por sua inatividade, com maiores taxas de quedas, obesidade, doenças cardíacas e morte precoce em comparação com a população em geral. Conforme envelhecemos, torna-se ainda mais importante para permanecer ativo que nós médicos orientemos o paciente a praticar esportes se quiserem permanecer saudáveis e manter a sua independência, pois se não ficarem ativos, todas as coisas que sempre gostavam de fazer podem começar a ficar um pouco mais difícil e dolorido.

O paciente muitas vezes luta com dor para conseguir ter prazeres simples, como brincar com os netos, andar nas lojas, praticar atividades de lazer simples e encontrar com amigos, mas se começar a ter dores e dores que nunca teve antes, terá menos energia para sair além de também estar mais vulneráveis ​​a cair. Isso tudo pode levar a ter menos capacidade de cuidar de si mesmo e fazer as coisas que gosta.

Fortes evidências

Há fortes evidências de que as pessoas que estão ativas têm um menor risco de doença cardíaca, acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer, depressão e demência. Do ponto de vista ortopédico melhora a mobilidade articular, alongamento e flexibilidade, isso sem falar na resistência física e muscular que melhora com a prática esportiva.

Se você não tem dor, e faz esportes, irá reduzir o risco de doença mental, e ser capaz de sair e ficar bem independente na velhice, que são aconselhados sempre a manter em movimento pode começar com uma simples caminhada diária de 15 minutos, ou 3 vezes por semana de 20 minutos. Obviamente esses valores terão que ser adequados a cada perfil e indicado desde você tenha condições de faze-lo, dando pelo menos esse princípio já podemos considerar que você saiu do sedentarismo.

É simples assim. Há muitas maneiras de manter-se ativo, pois conforme as pessoas envelhecem e seus corpos declinam a função, a atividade física ajuda a retardar essa degeneração, inclusive podemos falar em até progressão, ou seja, conforme envelhecem com o passar dos meses o condicionamento melhora e podem até ser intensificados.

 

Dra. Ana Paula Simões / CRM-SP 108667 / www.anapaulasimoes.com.br

Professora instrutora e mestre em Ortopedia e Traumatologia do Esporte da Santa Casa de SP, membro Internacional e Nacional das Sociedades de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé e Diretora da Sociedade Paulista de Medicina Esportiva.