Dabke Casal

Aproximar o público do Clube da rica cultura dos povos árabes é uma grande missão, cumprida com diversos eventos, como as palestras e sessões de cinema, e, inclusive, as publicações na Revista Sírio. Nessa edição, o Núcleo de Cultura Árabe entrou no universo das danças folclóricas em uma conversa com a professora Marcia Dib.

 

Núcleo de Cultura Árabe – Como você ficou conhecendo as danças folclóricas da Síria?

Marcia Dib – Eu não imaginava que a Síria tivesse tantos tipos de dança! Só conhecia o dabke e a dança do ventre. E quando fui para lá percebi que existem muitas outras danças maravilhosas!

Fiz diversas viagens de estudo, percorrendo o País e fazendo aulas e estágios em grupos de danças folclóricas. Aprendi as danças e músicas das diversas regiões. Depois fiz uma dissertação de Mestrado em Cultura Árabe intitulada “A Diversidade Cultural da Síria através da Música e da Dança”. Para conseguir material teórico, fiz mais viagens de estudo para lá.

Quando voltei para o Brasil com todo esse material em mãos, decidi trabalhar com as danças folclóricas, para resgatar e divulgar este patrimônio tão rico. Montei grupos de dança, comecei a ensinar aqui no Clube e em diversos outros lugares.

 

NCA – Como as pessoas reagiram quando perceberam a riqueza artística da Síria?

Marcia – Em todos os lugares onde levo as danças, todos ficam encantados. Afinal, são danças muito diferentes entre si, cada uma mostrando o cotidiano de uma região da Síria. Mesmo os descendentes de árabes não conheciam as danças. Por isso, gosto muito de trabalhar com isto para divulgar cada vez mais nossa riqueza cultural!

 

NCA – Você poderia explicar um pouco quais os tipos de dança que existem na Síria?

Marcia – A Síria pode ser dividida, para fins didáticos, em quatro grandes regiões: uma linha de cidades paralela à costa do Mediterrâneo (Damasco, Homs, Hama e Alepo); as áreas rurais ao redor delas; as áreas desérticas, onde vivem os beduínos (pastores nômades) e a linha de cidades e vilas próxima ao Rio Eufrates.

Cada uma dessas regiões tem um tipo de música e de dança. O ambiente influencia muito o movimento, já que interfere na maneira de pisar, na amplitude dos gestos, no tônus muscular. Além do ambiente, a atividade praticada no dia-a-dia vai trazer elementos para a dança. E existem também as trocas culturais com as regiões vizinhas. Em todas as regiões da Síria há danças masculinas, femininas e mistas.

 

NCA – Como são as danças das áreas rurais?

Marcia – Nas regiões rurais as danças são alegres e dinâmicas, e possuem muitos movimentos parecidos com aqueles usados nas práticas rurais, como o trabalho na terra, a construção das casas e a defesa do grupo. Aí aparecem as danças com jarros, foices, escudos, peneiras, cestos, etc. São danças alegres, muitas delas vinculadas a festividades (como a colheita, por exemplo) e geralmente apresentadas com roupas parecidas com aquelas usadas no campo.

 

NCA – E no deserto?

Marcia – Nas áreas de deserto as danças são mais fortes, com gestos amplos (lembrando a amplitude própria do deserto) e passos firmes mas com molejo (por causa da areia). Como no deserto faz muito calor de dia e muito frio à noite, as danças possuem tanto movimentos diretos e rápidos (para aquecer no frio) quanto passos mais sinuosos (para não cansar no calor). Neste ambiente existem as danças com bastões (são pastores), punhais e espadas (são utilizados para defesa) e muitos movimentos ligados ao seu cotidiano (tecer, bater manteiga, etc.), além das danças em linha, como um estilo de dabke chamado Lala. As roupas, tanto dos homens como das mulheres, é larga e confortável, como as túnicas brancas ou pretas.

 

NCA – Quais as características das danças da região do Eufrates?

Marcia – Nas cidades próximas ao Rio Eufrates acontecem danças muito diferentes, agitadas, vibrantes, com influência iraquiana, curda e turca. Mesmo o dabke desta região é saltado (diferente do dabke de outras regiões). Aparecem muitos elementos presentes nas danças do Golfo Pérsico. As músicas também são bem dinâmicas, alegres e animadas. As roupas usadas nestas danças (quase sempre calça e túnica) têm cores vibrantes, talvez por influência da rota da seda.

 

NCA – E nas cidades, como são as danças?

Marcia – Nas cidades da linha paralela ao Mediterrâneo aparecem dois tipos de dança: as mais informais e populares (festas dentro das casas e nas praças, por exemplo) e as danças mais formais. O conjunto destas danças formais é chamado de Samah e não podem ser consideradas folclóricas porque não são populares, mas sim feitas por dançarinos contratados e praticadas dentro dos palácios e cortes. A Síria é famosa por seus conjuntos de Samah, que existem até hoje!

 

NCA – Realmente são muitos tipos de dança! Você tem ensinado todos estes estilos?

Marcia – Voltei das viagens à Síria com muito material, tanto teórico como coreografias e músicas. Desde então tenho ensinado várias pessoas a dançar toda esta variedade de estilos. E agora haverá uma ótima oportunidade: o Clube Sírio tem a intenção de montar um grupo para estudar e praticar estas danças. Será um grupo adulto, para homens e mulheres a partir de 14 anos. Quem tiver interesse pode entrar em contato comigo (marciadib@hotmail.com) ou com a Secretaria Social. Muito obrigada ao Clube pela oportunidade de divulgar nossa cultura!